
Walter Joseph Kovacs é um sujeito que decidiu fazer algo pelas pessoas. Talvez seja isso que muita gente pensa de Rorschach. No entanto, o filho da prostituta Sylvia Kovacs faz coisas para que o seu senso de justiça e moral se mantenha em estado de alerta quase que constante. Kovacs não é um “cara” qualquer, também não é aquele herói que as criancinhas adorariam abraçar e tirar uma foto com ele, como Ozymandias. Rorschach é quem limpa a cidade da escória para que todos os dias o mundo volte a tratá-lo como se não estivesse lá.

O fato é que Rorschach deixou de ser Kovacs e adotou a máscara como seu verdadeiro rosto. Tudo que o pequeno Walter vê e vive na sua infância culminam no nascimento de um vigilante fisicamente anestesiado. Nem frio, dor ou incomodo. Nada afeta o corpo. O jeito com que ele resolve as suas missões são em sua maioria, improvisados de maneira que ele não carrega arma alguma.
Rorschach é o sujeito preparado para qualquer situação vestindo apenas o seu sobretudo, cachecol e chapéu. O resto, ele dá um jeito. Ao contrário dos seus colegas de combate ao crime, ele não herdou a fortuna do pai como o Coruja II, não construiu um império sobre a sua identidade como Ozymandias, não foi financiado pelo governo como Dr. Manhattan e o Comediante e não recebeu o seu legado de um dos seus pais, como a Espectral.

Rorschach é o exemplo ideal de norte-americano patriota e moralista. A crença dele no que é bom e justo o levou a arrombar portas, matar e contrariar os sagrados mandamentos. Os fins justificam os meios, não, Maquiavel? Para este herói mascarado, sim. Para Veidt também, mas de maneiras diferentes. Rorschach e Ozymandias são personagens que poderiam ser rivais tanto no que se refere ao caráter quanto à ideologia.
Enquanto Kovacs prefere agir anonimamente acreditando nos seus valores, Veidt traz os holofotes para si, passando por cima de limites éticos e sociais para alcançar seus objetivos. Walter é um homem de idéias, um apaixonado. Adrian é um homem de práticas, como os manuais de administração gostam de ensinar, ele é um “empreendedor”.
Até onde a fé de Rorschach o cega para o que acontece? O imediatismo das reações dele pode ser considerado como uma resposta bastante prematura, às vezes. Kovacs é o oposto da maioria dos heróis. Enquanto a maioria faz um plano, ele age. O plano é não ter plano. Assim como o Coringa dos quadrinhos de Batman.
A diferença é o propósito de cada um: Rorschach veste uma fantasia para defender, mesmo que isto implique em matar, demolir e assassinar; o Coringa porta seu terno roxo só para “ver o circo pegar fogo”. Logo no início, para quem nunca teve contato algum com os quadrinhos, percebe-se alguma semelhança de Rorschach com o Homem Morcego. Ambos são tratados com uma certa repugnância pelas outras pessoas que eles protegem quando a noite cai.

Entretanto, os personagens de Watchmen são mais profundos e dramáticos. Enquanto Batman, apesar de ser emblemático, acabou se tornando (nos cinemas, é claro) em um apanhado de explosões, restando ao Coringa o papel central. A infância difícil de Walter fez com que ele percebesse que ninguém vive apenas para desfrutar as maravilhas da boa mesa e o ar fresco de uma tarde de outono. Rorschach não tem boa mesa, muito menos brisas de meia estação. Kovacs vive no limite da moral e do crime, muitas vezes retribuindo a má ação dos seus bandidos com reações definitivas para que eles não possam repeti-las. Exceto pela devoção à pátria, Rorschach é o herói que qualquer país precisaria.





