Especial segunda-feira, 02-11-2009 às 10:50

A comoção gerada em torno de Edward Cullen, Stephanie Mayer e seus Crepúsculos é grande, de fato. Coisa parecida aconteceu há pouco tempo atrás com as varinhas e óculos de Harry Potter e J.K. Rowling. Eu lembro, estive em meio aos “potters”. E é com essa assim chamada, autoridade, que falo sobre o que vem acontecendo com os vampiros adocicados de Mayer. Histórias de bravura, romance e um grande inimigo poderoso sempre irão comover os leitores jovens. É quase um retorno aos épicos em que o mocinho salva a sua amada, derrota o vilão e retorna para a sua cidade carregando todos os trunfos da batalha.

Crepúsculo - Crédito: DivulgaçãoHarry Potter foi um deles. Agora é a vez de Edward Cullen. Toda a trama gira em torno de um vampiro adolescente capaz de andar sob a luz do sol e ter sentimentos por uma “mortal” chamada Bella. Contra Cullen estão os vampiros “maus” que não respeitam a vida e o sangue humano. Entretanto, pode-se dizer que a saga de “Crepúsculo” seria melhor vista se não tratasse de vampiros de uma maneira tão romantizada e, de acordo com o mito cainita, errada.

Para isso, precisaremos voltar alguns livros no tempo. Talvez os fãs de “Crépusculo” não conheçam os livros “Vampiro: A Máscara”, “Vampiro: A Idade das Trevas” e “Vampiro: O Requiem”. O fato é que os três livros trazem elementos da real lenda em torno dos cainitas. A série publicada pela editora Devir consiste em um jogo de RPG em que o sistema de regras e pontuação é considerado como um dos mais rigorosos e completos já vistos.  Logo nos prefácios dos livros, uma história é contada. A edição “A Idade das Trevas” mostra o dilema moral de um padre apresentado às artes das trevas praticadas pelos vampiros e seus rituais de sangue.

Livro de Nod - Crédito: DivulgaçãoO problema em comparar a grande explosão da “vampiro-mania” que veio logo depois do sucesso de “Crepúsculo” e as antigas lendas vampíricas é o público apaixonado. Ambos os lados possuem seus fãs e cada qual defende sua versão. Ainda assim, deve-se manter a história como ela foi escrita. Para aqueles que ainda não ouviram o mito original, as linhas do prefácio de “Vampiro: A Idade das Trevas” traz a carta do Frade Offa ao seu Monsenhor Bernardini relatando o que aconteceu nas floretas da Bretanha durante o século XII. Um pouco mais a diante, a história se explica da seguinte maneira:

“(…) A heresia [cainita] se funda na noção de que Caim era, de fato, o preferido de Deus entre os dois filhos de Adão, e que a marca que foi colocada sobre ele era na verdade um sinal dos favores de Deus.” Da mesma maneira que Saramago trata o seu Caim, no seu livro mais recente. A carta do Frade Offa diz: “Esses vampiros descendem de Caim, a quem Deus conenou a vagar a terra eternamente com a marca de Sua ira sobre ele. De acordo com Aelfred, essa terrível sede de sangue era a marca de Deus sobre Caim, e o filho de Adão passou sua maldição adiante quando, numa zombaria com o ato da Divina Criação, criou sua própria progênie. Todos esses vampiros são portanto descendentes de Caim, vagando pela terra, carregando sua maldição e passando-a para outros.”

Vampiro: Idade das Trevas - Crédito: DivulgaçãoSabendo disso, é romântica a ideia de que vampiros sejam as criaturas que caminham em plena luz do dia e em vez de queimaduras horríveis por toda a pele, passem a brilhar como se houvessem tomado um banho de purpurina. Talvez o romance do mito tenha iniciado anos antes em “Entrevista com o vampiro” da década de 1990, que tem como estrelas o trio Brad Pitt, Tom Cruise e Antonio Banderas em um visual “vampiro-grunge” misturando roupas de época com cabelos no estilo “Kurt Cobain” e olhares de “The Cure” do personagem de Pitt. As explicações completas sobre a origem dos vampiros (do RPG) está no Livro de Nod, complemento da ficção “Vampiro: A máscara”.

Mais tarde, é a vez da Rede Globo atacar o mito cainita com a novela “O Beijo do Vampiro” em que Kayky Brito interpreta um jovem vampiro que se encontra dividido entre o mundo dos vivos e dos vampiros. Algo que as produções jovens procuram amenizar é o fato de que os vampiros são, de acordo com a lenda, criaturas mortas que trocam o seu sangue pelo das suas vítimas.  Então fazer de Cullen um bom moço, assim como o Louis de Brad Pitt, é “enterrar” uma lenda que anda pela terra há séculos.

Veja trechos dos filmes comentados abaixo:

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