Hoje o assunto é um pouco diferente do que vínhamos falando nesse espaço para música. Muita gente aqui desconhece o fado. A mais tradicional das músicas portuguesas é praticamente desconhecida no Brasil. Pouco se ouve falar, pouco se ouve cantar. Só quem tem alguma ligação com a “terrinha” já pode experimentar um pouco do que é a canção de Portugal.
Trago este assunto aqui porque chegou hoje ao Brasil um dos maiores nomes do fado português atual, Maria João Quadros. A fadista veio à Curitiba para única apresentação na sexta-feira (18/12) no Hotel Pestana em comemoração aos 20 anos da Câmara de Comércio Portugal Brasil. Então, este post serve como um convite aos que por ventura queiram conhecer o que é o fado. Para isso, aqui vai uma breve explicação de tudo.
O Brasil tem muito de Portugal. Os azulejos, santos e cantigas são mais do que apenas memórias de um tempo em que os laços entre nós eram foram muito mais estreitos. Nossa língua tão bem escrita pela pena de Camões, Eça de Queiroz e Machado de Assis, forma um sentimento de aproximação maior do que alcançamos. Entretanto, poucos meios de expressão conseguem demonstrar as cadências da vida entre Portugal e Brasil tão bem quanto o fado.
A música e os acordes de um estilo musical que já atravessa séculos servem de embalo para os mais diferentes momentos da vida. Cantar o fado significa cantar a alma, e dela, o destino. Alguns historiadores contam que o fado nasce durante a primeira metade do século XIX, fruto de um encontro dos cânticos dos mouros com instrumentos trazidos por eles e adaptados à musicalidade de Portugal. E do destino das guitarras e das tabernas se fez o fado.
Já no século XX, a canção dos nostálgicos fadistas começa a ganhar um corpo artístico, literário e tamanha complexidade de melodia e ritmo que logo as métricas da poesia invadem os versos. O refinamento traz à voz as décimas, quintilhas, sextilhas, os alexandrinos e decassílabos. Assim, o cinema e o rádio começam a voltar seus olhos e ouvidos para a música que era cantada nas ruas. Não há prova maior da contemporaneidade e fluidez do fado na vida do português que os fados cantados de maneira memorável pela imortal Amália Rodrigues.
Depois de ganhar as telas e os palcos de todo o mundo, o fado português é brindado por uma intérprete de voz e musicalidade sem igual. Maria João Quadros canta as saudades, os ciúmes, o amor, a cidade e tantos outros temas em um dos espetáculos mais completos do cancioneiro português. Neste inesquecível show, a cantora interpreta lindos fados acompanhada dos músicos Ricardo Araújo e Zé Carlos – que encantam o público com duas guitarradas de tirar o fôlego.
A voz inconfundível de Maria João Quadros é um dos expoentes da música portuguesa. Dona de um estilo próprio e marcante, os tons encorpados das canções interpretadas por ela vão direto à nossa alma. Em vez de entregar-se aos shows das multidões, as apresentações desta fadista seguiram de uma maneira a emprestar sua voz aos retiros do fado. Seu mais novo disco, “Fado Mulato” é uma mescla dos impressionantes malabarismos vocais do fado à despreocupada forma de tocar da música popular brasileira.
Apresentar ao Brasil toda a sonoridade e presença de palco deste talento do fado é mais do que um mero evento. Trata-se de um espetáculo em que é preciso ultrapassar os limites de simplesmente ouvir para reconhecer no fado o cantar das emoções. Deve-se ouvir, porém, com a alma. Para tanto, ninguém melhor do que aqueles que cantam e tocam verdadeiros pedaços de nossos destinos enquanto ouvintes.





